Ep.10 – Dieta depois das festas: o que um pneu furado te pode ensinar

Beatriz Jorge
Beatriz Jorge Nutricionista e Fundadora BMFIT Cédula Profissional 5266N Ver bio
Filipe Simões
Filipe Simões CEO e fundador do BMFIT, Personal Trainer Ver bio
Publicado Fevereiro 7, 2026
Tempo de leitura — min

Resumo do Episódio

É mesmo preciso fazer dieta depois das festas?

O que importa não é o que fazes do Natal à passagem de ano, é o que fazes da passagem de ano ao Natal seguinte. Uma semana de festas, mesmo com excessos, pesa muito pouco contra meses de rotina. O problema não é essa semana, é sempre a ideia de que ela tem o poder de apagar tudo o resto.

O Natal e a passagem de ano são para desfrutar, tal como as férias. Ninguém tira férias para perder peso. A questão não está em comer bem ou mal num jantar de família, está na mentalidade de “é só hoje” que se repete jantar atrás de jantar em dezembro: o de amigos, o da empresa, o da família, o dos colegas. Cada um pensado como única exceção. Somados, deixam de ser uma exceção.

Há também quem entre nestes jantares já a tentar restringir-se ao máximo, a evitar as batatas, a limitar-se aos legumes, dentro de um contexto onde a oferta e a pressão social empurram exatamente para o oposto. E isso costuma sair pela culatra: a pessoa aguenta um bocado, cede numa rabanada, sente que já estragou tudo, e entrega-se ao resto sem qualquer travão. Nem a restrição total nem o “vale tudo” funcionam. O que funciona é chegar à mesa com consciência do que apetece mesmo comer, sem tentar controlar cada garfada nem devorar tudo o que vês à frente.

Situação Reação habitual (tudo-ou-nada) O que funciona
Comeste uma rabanada a mais "Já estraguei, então como o resto todo" Comeste, gostaste, segues o resto do dia normal
Jantar de sábado com exagero previsto Deixar andar até segunda-feira Planear já o pequeno-almoço e o almoço de domingo
Um jantar de Natal Tratar como se fosse todos os dias do mês Reconhecer que é uma refeição, não uma semana inteira
Sentes que "já não vale a pena" Desistir até janeiro Voltar ao plano na próxima refeição, não no próximo mês

Porque um deslize se transforma sempre em vários

Um deslize só se torna vários quando o usas como desculpa para desistir do resto do dia. É a mentalidade do tudo-ou-nada e há uma imagem que a explica melhor do que qualquer explicação técnica.

dieta depois das festas o que um pneu furado te pode ensinar

Furaste um pneu? Não precisas de furar os outros três.

Recuperar de um pneu furado é simples. Recuperar de quatro é muito mais difícil e demora muito mais tempo. Voltar à rotina depois de te deixares levar por todas as tentações, todos os desejos e todas as vontades de forma descontrolada custa muito mais do que te teres permitido só aquela rabanada e teres seguido em frente.

Como planear os jantares de Natal e de Ano Novo sem entrar em pânico

Planear a refeição antes e depois de um jantar de exagero evita que um dia se transforme em vários. Se sabes que vais ter um jantar ao sábado com os colegas de trabalho, onde vais beber mais uns copos e comer bem, o truque não é evitar esse jantar, é já teres pensado no pequeno-almoço e no almoço de sábado antes de lá chegares. Assim não deixas o “tenho este jantar, mas o Natal também é daqui a dois dias” se tornar bola de neve.

  • Antecipa a refeição seguinte. Antes de ires ao jantar, já sabes o que vais comer na refeição a seguir. Isso corta o impulso de “já agora, deixa andar”.
  • Chega com fome consciente, não com fome de aproveitar tudo. Nem sempre te apetece mesmo a rabanada que estás a colocar no prato só porque está lá. Pergunta-te o que queres mesmo comer, não o que “tens de aproveitar porque é só hoje”.
  • Usa o prato de sobremesa a teu favor. Se há dez sobremesas e queres provar três, faz um prato só com as três, em vez de encheres um prato de cada vez até já não caber mais nada.

Como lidar com comentários e pressão social à mesa

A pressão à mesa não vem só de quem está de dieta e ouve “mas podes comer isso?”. Também vem do lado contrário, de quem insiste “é só hoje, não vais estragar nada” quando já decidiste o que querias comer. Ambas mexem contigo, e há formas simples de responder sem entrar em confronto.

  • Diz que estás num desafio, não que estás a tentar emagrecer. Costuma ser mais fácil de aceitar pelas outras pessoas e tira peso à conversa.
  • Marca algo para a manhã seguinte. Uma corrida, um treino, qualquer compromisso que te dê um motivo real para não ficar até às tantas a ceder copo atrás de copo.
  • Muda de assunto e devolve a pergunta. A maior parte das pessoas gosta de falar de si própria, perguntar-lhes algo tira a atenção de ti sem drama.
  • “Não quero, obrigado.” Ponto final. Repetido sem justificação, sem explicações, costuma bastar para a pessoa perceber e seguir em frente.
  • Usa a tua equipa de acompanhamento como justificação. “O meu coach não deixa” ou “a minha nutricionista disse que não” tira a pressão de cima de ti e resolve a conversa sem desgaste.

Porque “recomeçar em janeiro” e a fazer a tradicional dieta depois das festas costuma falhar

Mudar tudo de repente a partir de janeiro falha quase sempre por volta da terceira semana, e o mesmo padrão repete-se ano após ano na mesma pessoa.

O ciclo é sempre parecido: alguém que não treina há cinco ou dez anos decide que a partir do dia 2 de janeiro vai ao ginásio todos os dias e só come frango, arroz e alface. Na primeira semana até funciona. Na segunda, o corpo está tão dorido que já custa levantar da cama, e ainda não há resultados visíveis ao espelho. Na terceira, a ansiedade de não ver mudanças toma conta da situação, a pessoa acha que “não funciona para ela” e desiste outra vez.

mulher faz corrida em grupo no Natal para começar a dieta depois das festas

Não se trata de uma questão de falta de força de vontade. É o facto da meta ser irrealista desde o início, pensada para uma vida que não é a vida real de quem tem trabalho, filhos, cansaço acumulado e ainda tem de levar o filho ao futebol depois de um dia inteiro sentada. 

A alternativa é subir aos poucos, um degrau de cada vez. Começa por treinar uma vez por semana. Consegues manter isso? Passa para duas. Ainda consegues? Passa para três. Se a quatro já falhas, fica nas três. O mesmo vale para a alimentação: garante primeiro 20 gramas de proteína ao pequeno-almoço, e só depois introduzes mudanças nas refeições principais. Janeiro não precisa de ser o mês em que mudas tudo, só precisa de ser o mês em que decides começar.

Celebrar as pequenas vitórias em vez de só pensar na meta final

Reconhecer o progresso pequeno é o que te mantém no processo até ele se tornar automático, não a meta final, que pode estar meses à frente. Se o teu objetivo é perder 10 quilos, não precisas de esperar pelos 10 quilos para teres algo a celebrar. Perder 1 quilo num mês já é um resultado. Ires ao ginásio duas vezes numa semana, depois de nunca lá teres ido, já é um resultado.

mãe e filha fazem exercício em casa e começam a dieta depois das festas

A sensação de estar sempre a falhar não é o que mantém ninguém motivada. É a sensação de estar de facto a conseguir alguma coisa, por pequena que pareça. São essas pequenas mudanças, repetidas semana após semana, que constroem os hábitos que um dia deixam de custar (a proteína diária, a lista de compras, o treino marcado), porque já entraram em piloto automático.

Perguntas Frequentes

Dieta depois das festas

Ganhei peso depois das festas, é gordura?

Não costuma ser. O aumento de peso logo a seguir a dias de mais sal, mais hidratos e mais álcool é sobretudo retenção de água, não gordura acumulada e tende a normalizar com o regresso à rotina.

Um jantar de Natal estraga meses de trabalho?

Não. O que estraga o processo não é um jantar isolado, é usar esse jantar como desculpa para desistir da semana ou do mês seguinte.

Vale a pena tentar comer "certo" durante os jantares de Natal?

Restringir-te ao máximo à mesa costuma correr mal, porque a oferta e a pressão social empurram no sentido oposto. Funciona melhor comer com consciência do que queres mesmo, sem tentar controlar cada garfada.

Devo esperar por janeiro para começar a mudar hábitos?

Não precisas de esperar por uma data. O problema de janeiro nunca foi o mês em si, foi a tendência de querer mudar tudo de uma vez a partir dele.

Como evito exagerar mais do que queria num jantar de família?

Planeia com antecedência a refeição antes e depois do jantar, chega com fome consciente do que te apetece mesmo, e usa o prato de sobremesa para provar sem encher o prato de cada vez.