Ep.54 – Como a tua mania da perfeição faz com que não percas peso

Filipe Simões
Filipe Simões CEO e fundador do BMFIT, Personal Trainer Ver bio
Publicado Maio 12, 2026
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Resumo do Episódio

A M. tinha percebido o padrão há meses, mas só nessa sessão o disse em voz alta: “se não consigo fazer tudo, então nem começo.” Uma pizza à quarta-feira e a semana estava arrumada na gaveta do “para a semana eu tento outra vez.” Um jantar ao sábado e já era a segunda-feira que ia salvar tudo. Isto não tem nada a ver com falta de força de vontade.

A Perfeição nunca foi o objetivo

Numa semana perfeita, com todas as condições alinhadas, trabalho calmo, filhos bem, tempo de sobra, talvez a M. conseguisse treinar cinco vezes e preparar as vinte e oito refeições da semana. Mas essa semana quase nunca existe. Há sempre um imprevisto, um filho doente, uma reunião que se atrasa, qualquer coisa a meio.

E se as condições não são as mesmas, não faz sentido exigir os mesmos resultados. Isto é simplesmente reconhecer que a vida normal nunca oferece as condições de um laboratório, semana após semana.

O que importa é não ir a zeros

A consistência é definir um intervalo do que é possível e nunca deixar cair a zero, sem exigir fazer tudo. Numa semana caótica, não são cinco treinos. São dois. Às vezes é uma caminhada. Mas ir a zeros é que não.

É essa a diferença entre quem desiste ao primeiro deslize e quem continua a aparecer, mesmo pior, mesmo menos. E é isso, sozinho, que separa quem tem resultados de quem anda sempre a recomeçar do zero.

Minimizar em vez de desistir

Quando a M. sentia que não ia conseguir preparar a refeição toda, a estratégia passou a ser outra: fazer só a proteína. Cozinhar só a carne picada, com um bocado de molho de tomate. Nada de pensar em fazer tudo perfeito, o acompanhamento, o prato completo. 

O mesmo se aplicava ao treino. Se não conseguia correr as duas horas planeadas, corria uma. Se não conseguia uma hora, corria vinte minutos. O número nunca ficava a zero. Mais vale terminar o dia com uma fração do que tinha planeado do que terminar sem nada.

Eliminar o atrito antes de precisar de força de vontade

Uma parte grande da conversa foi sobre o que acontece antes de decidir treinar ou não. Se o tapete está guardado no armário, se a roupa ainda está por lavar, se é preciso ir buscar isto e aquilo, cada um destes pequenos obstáculos é uma oportunidade para desistir.

A solução não foi “ter mais disciplina“. Foi tirar o atrito do caminho. Deixar o tapete montado na sala. Deixar a roupa de treino em cima da cama, pronta a vestir. Nos dias em que treinava em casa, a M. passou a vestir-se logo de manhã, antes de levar os filhos à escola, para que ao chegar a casa fosse só tirar os ténis e começar.

Nos dias mais difíceis, dormir já com a roupa de treino vestida. Parece pouco, mas é uma decisão a menos para tomar num momento em que a cabeça já está cansada de decidir.

O que muda quando se percebe isto

O objetivo nunca foi fazer tudo certo. Foi continuar a aparecer, mesmo de forma imperfeita, mesmo com menos. Porque, neste processo, ganha quem não desiste depois de uma semana má, mesmo sem ter feito a semana perfeita.

A M. saiu da conversa sem ter resolvido o problema todo. Mas com uma pergunta diferente na cabeça: em vez de “como faço isto perfeito”, passou a perguntar “o que é que ainda consigo fazer hoje, mesmo que seja pouco”. E essa mudança, sozinha, já é o que costuma manter alguém dentro do processo nos meses em que a vida não colabora.