Ep.37 – Body Positivity: aceitação ou resignação?

Filipe Simões
Filipe Simões CEO e fundador do BMFIT, Personal Trainer Ver bio
Beatriz Jorge
Beatriz Jorge Nutricionista e Fundadora BMFIT Cédula Profissional 5266N Ver bio
Ana Alves
Ana Alves Psicóloga, Coordenadora e Fundadora BMFIT Cédula Profissional OPP 26414 Ver bio
Publicado Março 30, 2026
Tempo de leitura — min

Resumo do Episódio

O que é o movimento body positivity?

O body positivity nasceu para combater o estigma à volta dos corpos que fogem ao padrão magro e defender que todas as pessoas merecem respeito e dignidade, independentemente da forma do seu corpo. Não tem de haver um corpo ideal para alguém merecer ser bem tratado. Com o body positivity vários tamanhos, formas, cores e marcas conquistaram espaço numa conversa que, até aí, só tinha lugar para um tipo de corpo. A ideia de base era que ninguém devia sentir vergonha só por ter um corpo diferente.

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Onde é que o body positivity se desviou do propósito original? 

O body positivity perdeu esta intenção inicial e deslizou para o extremo oposto, ao ponto de sugerir que qualquer estado de saúde é aceitável, aconteça o que acontecer. Foi uma mudança progressiva, mas que trouxe um risco: transformar o movimento numa desculpa para tudo. Se é para aceitar todos os corpos, começou a entender-se que também é para aceitar a inércia, a falta de mudança, a ausência de bem-estar. E aí a lógica inverte-se: “se tenho de me aceitar como sou, então não preciso de fazer nada para mudar.”

Usar o body positivity como justificação para não mexer em nada tem um preço. Quem carrega excesso de peso associado a outras doenças e se esconde atrás do movimento para não mudar nada, não está a viver a intenção original do body positivity. Perder gordura importa mais do que perder peso e o IMC não mostra tudo, mas “sentir-se bem” não é o mesmo que ter saúde.

Aceitar o corpo é o mesmo que resignar-me a ele? 

Aceitar o corpo é reconhecer onde estás agora, sem ódio nem vergonha, e ainda assim poder querer mudar. Não para caberes num padrão. Para teres mais energia num dia normal, com o trabalho, os filhos e o resto da vida a acontecer. A resignação é outra coisa: é desistir e continuar infeliz, sem energia, sem saúde, sem te sentires funcional no dia a dia, e chamar a isso paz.

A diferença está na posição em que te colocas depois de olhares para ti. Quando aceitas, percebes onde estás, mas continuas em movimento. Quando te resignas, ficas parada nesse ponto de insatisfação e finges que não estás. Este é também um tema central no episódio 38 Relação com o corpo: tu não és o teu espelho.

O que está em causa ✅ Aceitação 🚫 Resignação
Como olhas para o corpo Sem drama, reconheces onde estás Evitas olhar, foges de espelhos e fotografias
O que fazes a seguir Podes querer mudar, sem urgência de perfeição Desistes de mudar e chamas-lhe aceitação
Como te sentes por dentro Paz, mesmo com pontos que ainda queres trabalhar Insatisfação escondida atrás de um discurso de conformismo
Para onde vai a insatisfação Torna-se direção e escolhas concretas Fica guardada, sem saída

Há quem diga hoje que se queres mudar do lugar onde estás é porque não te estás mesmo a aceitar. Como se a aceitação te obrigasse a ficar. Não obriga. Podes aceitar onde estás, viver isso com mais leveza, e continuar a querer algo melhor, da mesma forma que podes estar satisfeita com o teu trabalho e ainda assim ambicionar crescer nele. Uma coisa não invalida a outra.

🚩 Os sinais da falsa aceitação no body positivity

A falsa aceitação é dizer que te aceitas, enquanto por dentro odeias o que vês. Costuma andar de mãos dadas com comportamentos concretos de evitamento:

  • Não se ver ao espelho há anos, só a cara, só para saber se está apresentável para o trabalho.
  • Esconder o corpo atrás de roupa larga e escura.
  • Não tirar fotografias e, quando alguém tira, não querer ver o resultado.
  • Inventar desculpas para não ir à praia ou não vestir um biquíni.

Nenhum destes comportamentos é aceitação, é evitamento.

O corpo importa mesmo, ou só a saúde mental é que conta? 

O teu corpo não define o teu valor como pessoa, mas define a tua saúde, a tua energia e a forma como te posicionas na tua vida. Isto é o que fica de fora quando se repete a frase “o teu corpo não define nada” sem o resto. É verdade que o corpo não te resume. Ignorar o impacto dele na tua saúde e no teu dia a dia é fingir que ele não pesa em nada, e pesa.

O ponto de equilíbrio está aqui: o corpo não deve ter mais importância do que as outras áreas da tua vida, mas também não deve ter menos. Entre cuidar de ti e abandonares-te existe uma linha muito ténue, e é aí que vale a pena procurar o meio, o equilíbrio. 

Como se pratica a aceitação sem cair na resignação? 

A aceitação começa por tratares-te com respeito sem precisares de gostar de tudo em ti, da ponta do cabelo à ponta do pé. Não precisas de amar cada detalhe para construíres uma relação mais leve com o teu corpo. Precisas só de parar de tratá-lo como inimigo.

  • Olha para o teu corpo hoje como resultado de escolhas e circunstâncias até agora, não como uma sentença. Se chegaste aqui através de escolhas, também podes escolher fazer diferente daqui para a frente, sem te culpares pelo caminho já feito.
  • Distingue desconforto de sabotagem. Sempre que investes em mudar algo importante, uma voz crítica vai aparecer. Usa-a para perceberes do que tens medo e te preparares melhor, e ela perde força. O desconforto de fazeres algo diferente não é sinal de erro. É só sinal de que estás a sair da tua rotina habitual. 
  • Cuida do corpo como forma de cuidado, não como castigo. Comer sem estares sempre a compensar a noite anterior. Mexer-te, nem que seja pouco. Dormir o suficiente para acordares com energia, não só sem sono. É o que te permite construir um corpo que é teu, talvez diferente do das outras, mas onde te sentes com saúde e satisfação. 

Podes estar em paz com o corpo que tens hoje e continuar a trabalhar para o mudar amanhã. As duas coisas cabem na mesma pessoa, ao mesmo tempo.