Ep.41 – Autoestima e imagem corporal no emagrecimento: o que muda primeiro?
Resumo do Episódio
A autoestima e a imagem corporal mudam quando começas a cuidar de ti no dia a dia. A perda de peso costuma vir depois, como consequência natural desse cuidado. A maior parte das mulheres com quem trabalhamos começou por acreditar no contrário nas suas tentativas anteriores, e é uma grande parte da razão pela qual essas tentativas não resultaram.
- A autoestima é o que sustenta a perda de peso desde o primeiro dia, muito antes de qualquer resultado aparecer na balança.
- A balança engana. Um corpo com mais massa muscular pode pesar mais e ser exatamente o corpo que procuras.
- Perder peso sem trabalhar a relação contigo mesma costuma trazer o peso de volta, e o medo de o perder outra vez.
- A autoestima constrói-se em escolhas pequenas, repetidas todos os dias, mesmo quando o dia não corre como planeado.
Autoestima e imagem corporal: só vais gostar de ti quando emagreceres?
A perda de peso sustentável começa quando decides cuidar de ti. O peso muda como resultado desse cuidado, ao longo do caminho, não é o ponto de partida.
Uma frase que ouvimos muito em consulta é qualquer coisa como “não gosto de tirar fotografias agora, mas quando emagrecer vai ser tudo mais fácil”. Parece inofensiva. Não é. Essa frase cria uma condição: só mereço gostar de mim depois de chegar a um corpo que ainda nem sei bem qual é. E enquanto isso não acontece, vives a marginalizar-te a ti mesma, a sentir que nunca estás bem o suficiente, mesmo quando já há progresso a acontecer.
É comum vermos mulheres que já perderam peso, que já estão a ter resultados, mas que continuam a olhar para o espelho e a sentir-se mal. Porquê? Porque continuam a acreditar que só podem gostar de si quando chegarem a um padrão ideal que nunca chega. E se a felicidade estivesse mesmo só à espera desse número, o que aconteceria depois de o atingires? Os problemas continuariam lá, porque o olhar sobre ti própria não mudou, só o número na balança.

Quando é o cuidado que vem primeiro – dormir melhor, escolher com mais consciência, mover-te mais -, a perda de peso surge como resultado natural desse processo. O peso que perdes reflete o caminho que percorreste, dia após dia.
Porque não devias deixar a balança decidir a tua autoestima e a imagem que tens do teu corpo?
A balança é das medidas que menos dizem sobre o que está realmente a acontecer no teu corpo, e usá-la como critério único de sucesso é condenares-te a falhar antes mesmo de começar.
O teu corpo muda ao longo do ano. O teu peso não é o mesmo a 1 de janeiro e a 31 de dezembro, e para as mulheres isto é ainda mais evidente, com oscilações que os homens simplesmente não têm. Se colocas o teu valor dependente de um número que por natureza está sempre a mudar, vais sair frustrada. Sempre.
Há ainda outra questão, mais silenciosa: muitas vezes o corpo que procuras, mais definido, mais firme, na verdade pesa mais do que aquele que tens agora. Porquê? Porque esse corpo tem mais massa muscular. E um quilo de massa muscular ocupa menos espaço no corpo do que um quilo de gordura. É por isso que o treino de força é fundamental para esculpir o corpo que queres, mas a balança, sozinha, não te vai mostrar essa mudança.
Como a balança não mostra esta diferença, no programa trabalhamos com cada aluna a identificar outras vitórias além do peso: a roupa que já assenta de forma diferente, a energia que sobra ao final do dia, a disposição que volta. Se a única métrica é a balança, e ela não se mexe da forma que esperavas, a leitura imediata é “estou a falhar”. E normalmente é precisamente o oposto.
A mesma lógica explica porque é que alguns métodos mais radicais como cirurgias ou outros atalhos que dispensam o trabalho constante, deixam a pessoa presa na mesma mentalidade de sempre.
O que acontece quando perdes peso sem trabalhar a autoestima e a imagem corporal?
Quando o corpo muda mas a relação contigo mesma não muda, o resultado tende a não durar. O medo de engordar de novo torna-se uma presença constante.
Trabalhar só a parte externa do corpo, sem trabalhar o que se passa por dentro, é como pintar por cima de um buraco na parede. Fica bonito à vista, mas o buraco continua lá, e sabes disso. Continua a ser um risco, um ponto fraco que não desapareceu, só ficou escondido.
Encontramos este padrão vezes sem conta: mulheres que perderam peso de forma significativa, mas que continuam a olhar para o corpo e a identificar defeitos, sempre à procura de um novo alvo. Deixa de ser as coxas, passa a ser a barriga. Deixa de ser a barriga, passa a ser os braços. A insegurança não desaparece com o peso, muda de sítio.
E há um padrão que se repete: mulheres que constroem um corpo diferente, mas que passam a viver com medo de engordar e voltar ao que eram. Ou com medo de não serem suficientes, mesmo depois da mudança, sempre a comparar-se com quem parece ter um corpo “melhor”. Perder peso não apaga inseguranças antigas. Às vezes até as amplifica, porque a exposição aumenta e a fragilidade interna fica mais visível para os outros e para nós mesmas.
Como se constrói a autoestima, na prática, todos os dias?
A autoestima constrói-se em pequenas escolhas repetidas: treinar mesmo sem motivação, preparar uma refeição em vez de encomendar, descansar quando é preciso descansar. Não em resultados perfeitos ou dias impecáveis.
Uma das confusões mais comuns é achar que ser consistente é fazer tudo sempre da mesma forma, todos os dias, sem falhas. Isso não é possível: os teus dias não são todos iguais, e exigir isso de ti mesma é criar mais um motivo para desistires. Ser consistente é outra coisa: é teres sempre os teus objetivos em mente e perceberes como é que eles encaixam no dia que tens à tua frente, que hoje pode ser mais difícil do que ontem foi.
O objetivo, no fundo, é chegar ao final do dia sem um zero. Hoje pode ser 80%. Ontem foi 100%. Amanhã pode ser só 60%. Mas nunca zero, porque 20%, 10% ou 5% de alguma coisa será sempre mais do que nada:
- Não estás motivada para o treino completo? Faz metade.
- Não te apetece nada? Uma caminhada curta já conta.
- Um dia mais cansativo pode pedir mais descanso em vez de mais esforço, e isso também é uma escolha consistente com o teu objetivo.
- Dizer não a ambientes e a pessoas que te desgastam ou sabotam o teu processo é também uma forma de cuidar de ti.
Mesmo que o peso não desça numa determinada semana, se treinaste quando antes não treinavas, se deste uns passos a mais, se preparaste uma refeição em vez de encomendares comida, isso é evolução. Não é a balança que define isso. É o compromisso contigo mesma, repetido dia após dia.
A baixa autoestima também tem comportamento próprio, reconheces algum?
A autoestima baixa manifesta-se em comportamentos concretos: evitar eventos sociais, manter a cabeça baixa, evitar olhar as pessoas nos olhos. Esses padrões mudam quando a autoestima muda, independentemente do que acontece com o corpo.
Associamos a falta de confiança social só ao peso ou à aparência, mas o padrão de comportamento costuma vir primeiro. Quando a autoestima está em baixo, evitam-se convívios, evita-se o contacto visual, a cabeça mantém-se baixa por vergonha ou por medo de ser julgada. E quando isso acontece, o ciclo alimenta-se a si mesmo: menos convívio social significa menos feedback positivo, e menos feedback positivo reforça a insegurança.
A segurança em ti mesma também define a forma como te posicionas no trabalho. Se achas que tens valor, avanças, mostras o que sabes fazer. Se não sentes isso, encostas-te à parede e esperas que ninguém repare em ti, só para evitar ser criticada.

Quando a autoestima começa a mudar, não porque o corpo mudou, mas porque a pessoa começa a sentir-se capaz noutras áreas da vida, os comportamentos mudam também. A cabeça levanta-se. Vai-se a mais eventos. A dinâmica social muda porque, por dentro, a pessoa se sente diferente.
Autoestima e imagem corporal no emagrecimento
Perder peso melhora sempre a autoestima?
Não necessariamente. Sem trabalhar a relação contigo mesma, é comum perder peso e continuar a sentir-se insegura, só que agora à procura de um novo “defeito” no corpo.
A balança deve ser ignorada por completo?
Não. Pode fazer parte do processo como um indicador entre vários, mas nunca deve ser o único critério de progresso, porque é das medidas que menos dizem sobre o que está a acontecer no teu corpo.
Como sei se estou a construir autoestima e não só a tentar perder peso?
Se, mesmo em dias em que o peso não desce, continuas a reconhecer as escolhas que fizeste: treinar, preparar refeições, descansar quando precisavas, estás a construir a base certa.