Ep.40 – Será que estás a treinar por obrigação?

Filipe Simões
Filipe Simões CEO e fundador do BMFIT, Personal Trainer Ver bio
Ana Alves
Ana Alves Psicóloga, Coordenadora e Fundadora BMFIT Cédula Profissional OPP 26414 Ver bio
Publicado Abril 6, 2026
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Resumo do Episódio

Reconheces este padrão de treinar por obrigação?

Comer algo e sentir que “tens de compensar” no treino do dia seguinte é o sinal mais comum de que estás a treinar por castigo. 

São frases que provavelmente já disseste, ou já ouviste alguém dizer:

  • “Amanhã tenho de fazer o dobro do cardio.”
  • “Tenho de correr atrás do prejuízo.”
  • “Comi imenso no fim de semana, agora tenho de dar o litro.”

Parece inofensivo. Às vezes até soa a motivação, “olha, ela está mesmo empenhada”. Mas por baixo destas frases está sempre a mesma lógica: eu fiz algo de errado, agora tenho de sofrer para pagar por isso. Isso não é motivação e é desgastante.

Dá para “queimar” o que comeste a treinar?

O corpo não troca calorias de uma refeição por horas de treino de forma sustentável, por muito que a matemática pareça simples no papel.

Pensa numa refeição normal fora de casa: entrada, prato principal, sobremesa, talvez um copo de vinho. Em trinta minutos, sem grande esforço e com prazer, é fácil chegar às 1000 ou 1500 calorias. Para “apagar” essas calorias só com exercício, precisarias de horas de treino. Nenhuma mulher com trabalho, filhos e vida real consegue manter isso. O problema é tentares resolver com treino uma coisa que o treino nunca foi feito para resolver. Comer com prazer não é um erro que precise de correção.

mulher está em esforço no ginásio e pensa que tem de treinar por obrigação

O ciclo de fim de semana que (quase) todas conhecem e que leva a treinar por obrigação

Sexta à noite começa o desleixo. Sábado continua. Domingo também. E na segunda-feira de manhã, antes do café, já estás na balança.

A força de vontade não tem nada a ver com isto. Este ciclo não aguenta mais do que uns dias, seja quem for a segui-lo.

Tenho de gostar de treinar para isto funcionar?

Gostar ou não gostar de treinar é normal. O problema é usares o treino como forma de pagar por algo que “fizeste de errado”.

Há aqui um mal-entendido comum que vale a pena desfazer: ninguém está a dizer que tens obrigatoriamente de adorar treinar, de sentir aquela vontade doida de ir para o ginásio. Há pessoas que nasceram assim, vão correr uma maratona e no dia a seguir já estão a pensar na próxima. Mas essas pessoas são a exceção, não a regra.

A maior parte de nós não cresceu assim, e está tudo bem. O que faz a diferença é para onde vais quando terminas o treino, não o quanto gostaste do momento em si. Se o motivo é fugir de um castigo, vais sempre adiar. Se o motivo é chegar a uma sensação de bem-estar, mesmo sem entusiasmo inicial, isso sustenta-se.

Sinal Treino por castigo Treino por cuidado
Motivo "Tenho de compensar o que comi" "Quero sentir-me bem, com mais energia"
Base emocional Culpa e urgência Rotina e bem-estar
Quando aparece Só depois de excessos ou insatisfação com o corpo Faz parte do dia, mesmo sem grande motivo
Duração Termina assim que a motivação inicial acaba Mantém-se mesmo nos dias sem vontade
Sensação associada "Não gosto disto" O que se sente depois, não o desconforto

De onde vem esta relação negativa com o exercício?

A relação difícil com o exercício costuma começar muito antes da vida adulta. Começa na escola.

Quem cresceu com mais peso lembra-se bem das aulas de educação física: dos testes em que ficava para último, das comparações à frente da turma, de ser alvo de comentários ou pior. Essa má relação não desaparece sozinha com os anos. Fica ali, associada ao exercício, muito antes de a pessoa decidir “agora vou tratar de mim”. Se sentes que sempre tiveste má relação com o exercício, provavelmente é uma marca que vem de muito antes de teres decidido emagrecer, não uma falha tua agora.

O que muda quando deixas de treinar por castigo?

Quando o motivo passa a ser bem-estar e não compensação, o treino deixa de precisar de motivação diária. Passa a ser automático.

É isto que se vê claramente nas mulheres que já estão num processo de mudança de mindset há algum tempo. Quando voltam de férias, não dizem “comi imenso, tenho de compensar”. Dizem outra coisa: que sentiram falta de treinar, que notaram menos energia, que estavam mais paradas do que gostam. Não estão preocupadas com o que comeram ou com quilos a mais na mala. Desfrutaram das férias e agora querem voltar a sentir aquela sensação de bem-estar que o treino lhes dá. Voltar a cuidar de si, sem estar a pagar por nada. É isso que muda.

Perguntas Frequentes

Treinar por obrigação

Quando o motivo passa a ser bem-estar e não compensação, o treino deixa de precisar de motivação diária. Passa a ser automático.

É normal não gostar de treinar mesmo depois de já ter uma rotina?

Sim. Não gostar do momento em si (do esforço, do suor, do desconforto), é normal e não significa que a tua relação com o exercício esteja errada. O que importa é o motivo que te leva lá: se é castigo ou se é cuidado.

Como sei se estou a treinar por castigo?

Repara em quando decides treinar mais ou mais forte. Se é sempre depois de “comeres mal” ou de te sentires insatisfeita com o corpo, e nunca noutros momentos, é provável que o treino esteja a funcionar como punição, não como cuidado.

Treinar mais depois de um fim de semana de excessos ajuda a compensar?

O corpo não funciona por troca direta entre o que se come e o que se queima num treino. Treinar mais nesses dias raramente resolve o desconforto, só alimenta o ciclo de culpa e cansaço.