Ep.38 – Relação com o corpo – tu não és o teu espelho
Resumo do Episódio
A relação com o corpo mede-se pelo que sentes ao olhar para ele. A forma que ele tem pesa bem menos nisso do que costumas pensar. Se evitas espelhos em casa, foges de fotografias, ou tens roupa acumulada no armário que já nem usas, essa relação começou muito antes de teres pensado em emagrecer.
Principais conclusões
- Imagem corporal não é o que vês ao espelho, é o que sentes em relação ao que vês.
- Esta relação começa na infância e na adolescência, não na vida adulta.
- O corpo “perfeito” das redes sociais é editado e muda de década para década: nunca vais alcançar algo que está sempre a mudar.
- Não gostar do corpo é o que empurra muitas mulheres para dietas restritivas e para o treino como castigo.
- A saída está no equilíbrio: treinar como celebração, comer sem restrição extrema, e tratar o corpo como parceiro.
O que é imagem corporal?
Imagem corporal é a forma como avalias emocionalmente o que vês refletido no espelho. Podes ter o mesmo corpo há cinco anos e sentires-te bem nele numa fase e mal noutra, sem que ele tenha mudado nada de relevante. É por isso que perder peso, sozinho, raramente resolve este problema: a balança pode descer e o sentimento em frente ao espelho continuar igual.
Quando esse sentimento é negativo, as consequências aparecem depressa. A autoestima desce, os comportamentos alimentares começam a ficar disfuncionais, a ansiedade aumenta, e instala-se um ciclo de autossabotagem que se alimenta a si próprio: quanto pior te sentes, mais te fechas, e quanto mais te fechas, pior te sentes, porque deixas de receber qualquer feedback positivo que contrarie o que já estavas a pensar de ti.

Quando começa a relação com o corpo?
A relação com o corpo começa na infância e na adolescência, com comentários de família, de colegas de escola, e comparações que ficam guardadas muito depois de as teres ouvido. Na vida adulta, quando ganhas ou perdes peso, só voltas a dar por ela.
A Beatriz, nutricionista e fundadora do BMFIT, conta que teve excesso de peso na infância e na adolescência, e que vivia a comparar-se constantemente com os colegas. Lembra-se das aulas de natação como um dos momentos mais difíceis: só o facto de vestir o fato e ficar sem camisola por cima já lhe custava bastante. Era sempre “a gordinha” ou “a cheinha” da família, e havia sempre quem fizesse questão de lho lembrar. Ainda hoje, sem pensar, faz um gesto que ficou desse período: esticar a roupa sempre que se senta, para a barriga não marcar.
Estes episódios não ficam só na memória. Moldam a forma como avalias o teu próprio corpo mais tarde. Essa avaliação é o que carregas contigo, independentemente do corpo que tens hoje.
O corpo feminino perfeito das redes sociais existe?
O corpo promovido nas redes sociais, nas revistas e nos filtros do telemóvel existe só dentro desses ecrãs. É editado, tratado, e persegue um padrão que muda de década para década. Há uns anos o corpo ideal era magro. Depois passou a ser cintura fina com glúteos e pernas mais definidos. Amanhã será outra coisa qualquer.
Isto cria um problema real: estás sempre a tentar alcançar algo que já mudou quando lá chegas, e que, muitas vezes, a tua própria estrutura óssea nem permite. A Ana Alves, psicóloga do BMFIT, partilha o caso de uma cliente que sempre adorou as suas curvas, até mudar de país e entrar numa cultura onde o padrão de corpo era o oposto do que ela tinha. Passou a odiar e a esconder aquilo que sempre gostou em si. O corpo dela não tinha mudado nada. O padrão à volta é que mudou.
Quando dependes de um padrão externo para te sentires bem, ficas sempre à mercê dele. E esse padrão nunca para.
Porque é que não gostar do corpo leva a dietas restritivas?
Não gostar do que vês ao espelho está muitas vezes por trás de dietas cada vez mais restritivas. A ideia é simples: se cortares tudo, talvez comeces a gostar de ti. Só que isto não funciona assim. O corpo entra em modo de sobrevivência, e o que vem a seguir é compulsão, não controlo.
| Fase | O que acontece | O que ajuda a quebrar o ciclo |
|---|---|---|
| 🚫 Restrição | Cortas comida de forma extrema, na esperança de "merecer" gostar de ti | 🍽️ Comer o suficiente ao longo do dia, sem cortar tudo de vez |
| 🆘 Sobrevivência | O corpo, sem energia nem nutrientes suficientes, começa a pedir mais | ⚡ Garantir energia e nutrientes suficientes, para o corpo não entrar em alerta |
| 🍽️ Compulsão | Comes em excesso, muitas vezes mais do que terias comido sem restringir | 💡 Perceber que veio da restrição anterior, não de falta de força de vontade |
| 😔 Culpa | Sentes que falhaste, e a resposta costuma ser voltar a restringir ainda mais | 🌱 Voltar à rotina normal no dia seguinte, sem reiniciar a restrição |
É como um elástico: quanto mais o puxas para a restrição, com mais força ele salta para o lado da compulsão. E o problema não fica só na estética. Fica também na parte emocional: a frustração de sentir que não consegues, a sensação de que não mereces resultado nenhum.
Por isso, quando a reeducação alimentar não olha também para esta parte emocional, dificilmente a mulher sai destes ciclos de restrição e compulsão de forma definitiva.
Quando é que o treino se torna um castigo?
Treinar para “queimar” o que comeste transforma o exercício em punição, e isso não se sustenta a longo prazo. Comer um donut de 200 ou 300 calorias demora meio minuto. Queimar essas calorias exige uma aula inteira de spinning, de mais de uma hora, a suar sem parar. A conta nunca fecha, e o que fica é a sensação de que o exercício é sempre uma dívida a pagar.
O Filipe conta uma experiência própria: começou a correr, e o que era prazeroso levou ao extremo, 10km todos os dias. No primeiro ano correu, mas a meio do segundo já eram lesões, sacrifício, e o simples pensar em acordar para correr já era horrível. O que era positivo, levado ao limite, tornou-se negativo.
Há também um erro comum do lado de quem ensina: personal trainers que, na primeira sessão com uma cliente nova, “dão-lhe uma boa tareia” para mostrar do que são capazes. A cliente desaparece semanas depois, e o profissional conclui que ela não tinha vontade. Não percebe que a experiência que lhe deu foi tão má que ninguém volta a gostar de treinar depois disso.

Como começar a mudar a relação com o corpo?
Mudar a relação com o corpo começa por tratares o teu corpo como parceiro. Sustenta-se no equilíbrio, sempre longe dos extremos. Treinar deixa de ser punição quando passa a ser celebração daquilo que o teu corpo é capaz de fazer: a primeira flexão que consegues, a primeira vez que levantas mais peso do que pensavas, a sensação de mais energia no fim do dia.
Experimentar coisas novas, surf, padel, boxe, o que for, sem pressão de resultado, ajuda a descobrir onde te sentes bem, e é aí que nasce uma motivação que não depende de castigar o corpo por não estar “perfeito”. A mudança não vem de um mês perfeito. Vem da consistência ao longo do tempo, mesmo nos dias em que corres para o gelado inteiro depois de um dia mau. O segredo está em voltar no dia seguinte, sem entrar outra vez no ciclo de restrição.
Relação com o corpo no emagrecimento
Imagem corporal não é o que vês ao espelho, é o que sentes em relação ao que vês.
Porque não gosto do meu corpo mesmo depois de emagrecer?
Porque perder peso não muda, sozinho, a avaliação emocional que fazes de ti. Essa avaliação foi construída ao longo de anos, com comentários, comparações e padrões externos, e continua ativa mesmo quando o corpo muda.
Treinar demasiado é sinal de má relação com o corpo?
Pode ser, sobretudo quando o treino serve para compensar o que comeste ou para te castigares por não estares satisfeita com o corpo. Treino saudável nasce de vontade de te sentires bem. Raramente nasce de culpa.
Como começar a mudar a relação com o meu corpo?
Trocando extremos por consistência: sair do ciclo de restrição e compulsão, experimentar formas de mexer o corpo que tragam prazer em vez de castigo, e trabalhar a parte emocional a par da alimentação.
O que é imagem corporal?
É o que sentes em relação ao que vês refletido no espelho.