Ep.38 – Relação com o corpo – tu não és o teu espelho

Ana Alves
Ana Alves Psicóloga, Coordenadora e Fundadora BMFIT Cédula Profissional OPP 26414 Ver bio
Filipe Simões
Filipe Simões CEO e fundador do BMFIT, Personal Trainer Ver bio
Beatriz Jorge
Beatriz Jorge Nutricionista e Fundadora BMFIT Cédula Profissional 5266N Ver bio
Publicado Abril 1, 2026
Tempo de leitura — min

Resumo do Episódio

O que é imagem corporal?

Imagem corporal é a forma como avalias emocionalmente o que vês refletido no espelho. Podes ter o mesmo corpo há cinco anos e sentires-te bem nele numa fase e mal noutra, sem que ele tenha mudado nada de relevante. É por isso que perder peso, sozinho, raramente resolve este problema: a balança pode descer e o sentimento em frente ao espelho continuar igual.

Quando esse sentimento é negativo, as consequências aparecem depressa. A autoestima desce, os comportamentos alimentares começam a ficar disfuncionais, a ansiedade aumenta, e instala-se um ciclo de autossabotagem que se alimenta a si próprio: quanto pior te sentes, mais te fechas, e quanto mais te fechas, pior te sentes, porque deixas de receber qualquer feedback positivo que contrarie o que já estavas a pensar de ti.

Uma mulher com excesso de peso frente ao espelho ilustra a relação com o corpo e a autoestima no emagrecimento

Quando começa a relação com o corpo?

A relação com o corpo começa na infância e na adolescência, com comentários de família, de colegas de escola, e comparações que ficam guardadas muito depois de as teres ouvido. Na vida adulta, quando ganhas ou perdes peso, só voltas a dar por ela.

A Beatriz, nutricionista e fundadora do BMFIT, conta que teve excesso de peso na infância e na adolescência, e que vivia a comparar-se constantemente com os colegas. Lembra-se das aulas de natação como um dos momentos mais difíceis: só o facto de vestir o fato e ficar sem camisola por cima já lhe custava bastante. Era sempre “a gordinha” ou “a cheinha” da família, e havia sempre quem fizesse questão de lho lembrar. Ainda hoje, sem pensar, faz um gesto que ficou desse período: esticar a roupa sempre que se senta, para a barriga não marcar.

Estes episódios não ficam só na memória. Moldam a forma como avalias o teu próprio corpo mais tarde. Essa avaliação é o que carregas contigo, independentemente do corpo que tens hoje.

O corpo feminino perfeito das redes sociais existe?

O corpo promovido nas redes sociais, nas revistas e nos filtros do telemóvel existe só dentro desses ecrãs. É editado, tratado, e persegue um padrão que muda de década para década. Há uns anos o corpo ideal era magro. Depois passou a ser cintura fina com glúteos e pernas mais definidos. Amanhã será outra coisa qualquer.

Isto cria um problema real: estás sempre a tentar alcançar algo que já mudou quando lá chegas, e que, muitas vezes, a tua própria estrutura óssea nem permite. A Ana Alves, psicóloga do BMFIT, partilha o caso de uma cliente que sempre adorou as suas curvas, até mudar de país e entrar numa cultura onde o padrão de corpo era o oposto do que ela tinha. Passou a odiar e a esconder aquilo que sempre gostou em si. O corpo dela não tinha mudado nada. O padrão à volta é que mudou.

Quando dependes de um padrão externo para te sentires bem, ficas sempre à mercê dele. E esse padrão nunca para.

Porque é que não gostar do corpo leva a dietas restritivas?

Não gostar do que vês ao espelho está muitas vezes por trás de dietas cada vez mais restritivas. A ideia é simples: se cortares tudo, talvez comeces a gostar de ti. Só que isto não funciona assim. O corpo entra em modo de sobrevivência, e o que vem a seguir é compulsão, não controlo.

Fase O que acontece O que ajuda a quebrar o ciclo
🚫 Restrição Cortas comida de forma extrema, na esperança de "merecer" gostar de ti 🍽️ Comer o suficiente ao longo do dia, sem cortar tudo de vez
🆘 Sobrevivência O corpo, sem energia nem nutrientes suficientes, começa a pedir mais ⚡ Garantir energia e nutrientes suficientes, para o corpo não entrar em alerta
🍽️ Compulsão Comes em excesso, muitas vezes mais do que terias comido sem restringir 💡 Perceber que veio da restrição anterior, não de falta de força de vontade
😔 Culpa Sentes que falhaste, e a resposta costuma ser voltar a restringir ainda mais 🌱 Voltar à rotina normal no dia seguinte, sem reiniciar a restrição

Por isso, quando a reeducação alimentar não olha também para esta parte emocional, dificilmente a mulher sai destes ciclos de restrição e compulsão de forma definitiva.

Quando é que o treino se torna um castigo?

Treinar para “queimar” o que comeste transforma o exercício em punição, e isso não se sustenta a longo prazo. Comer um donut de 200 ou 300 calorias demora meio minuto. Queimar essas calorias exige uma aula inteira de spinning, de mais de uma hora, a suar sem parar. A conta nunca fecha, e o que fica é a sensação de que o exercício é sempre uma dívida a pagar.

O Filipe conta uma experiência própria: começou a correr, e o que era prazeroso levou ao extremo, 10km todos os dias. No primeiro ano correu, mas a meio do segundo já eram lesões, sacrifício, e o simples pensar em acordar para correr já era horrível. O que era positivo, levado ao limite, tornou-se negativo.

Há também um erro comum do lado de quem ensina: personal trainers que, na primeira sessão com uma cliente nova, “dão-lhe uma boa tareia” para mostrar do que são capazes. A cliente desaparece semanas depois, e o profissional conclui que ela não tinha vontade. Não percebe que a experiência que lhe deu foi tão má que ninguém volta a gostar de treinar depois disso.

Infográfico resumo Relação com o corpo no emagrecimento acompanhamento online BMFIT

Como começar a mudar a relação com o corpo?

Mudar a relação com o corpo começa por tratares o teu corpo como parceiro. Sustenta-se no equilíbrio, sempre longe dos extremos. Treinar deixa de ser punição quando passa a ser celebração daquilo que o teu corpo é capaz de fazer: a primeira flexão que consegues, a primeira vez que levantas mais peso do que pensavas, a sensação de mais energia no fim do dia.

Experimentar coisas novas, surf, padel, boxe, o que for, sem pressão de resultado, ajuda a descobrir onde te sentes bem, e é aí que nasce uma motivação que não depende de castigar o corpo por não estar “perfeito”. A mudança não vem de um mês perfeito. Vem da consistência ao longo do tempo, mesmo nos dias em que corres para o gelado inteiro depois de um dia mau. O segredo está em voltar no dia seguinte, sem entrar outra vez no ciclo de restrição.

Perguntas Frequentes

Relação com o corpo no emagrecimento

Imagem corporal não é o que vês ao espelho, é o que sentes em relação ao que vês.

Porque não gosto do meu corpo mesmo depois de emagrecer?

Porque perder peso não muda, sozinho, a avaliação emocional que fazes de ti. Essa avaliação foi construída ao longo de anos, com comentários, comparações e padrões externos, e continua ativa mesmo quando o corpo muda.

Treinar demasiado é sinal de má relação com o corpo?

Pode ser, sobretudo quando o treino serve para compensar o que comeste ou para te castigares por não estares satisfeita com o corpo. Treino saudável nasce de vontade de te sentires bem. Raramente nasce de culpa.

Como começar a mudar a relação com o meu corpo?

Trocando extremos por consistência: sair do ciclo de restrição e compulsão, experimentar formas de mexer o corpo que tragam prazer em vez de castigo, e trabalhar a parte emocional a par da alimentação.

O que é imagem corporal?

É o que sentes em relação ao que vês refletido no espelho.