Ep.14 – Dieta ioiô: porque perdes peso rápido e o ganhas de volta em dobro

Filipe Simões
Filipe Simões CEO e fundador do BMFIT, Personal Trainer Ver bio
Beatriz Jorge
Beatriz Jorge Nutricionista e Fundadora BMFIT Cédula Profissional 5266N Ver bio
Publicado Fevereiro 16, 2026
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Resumo do Episódio

O que é a dieta ioiô?

A dieta ioiô é perderes peso rápido com uma dieta muito restritiva e voltares a ganhá-lo pouco tempo depois, muitas vezes ultrapassando o peso com que começaste. Chama-se assim porque o peso sobe e desce, sobe e desce, como um ioiô. E quando volta a subir, raramente para no mesmo sítio onde começou.

Se já tentaste emagrecer duas, três, dez vezes e sentes que voltas sempre à estaca zero, ou pior, não és só tu. É um padrão. E tem uma explicação.

Porque é que entras neste ciclo?

Entras no ciclo ioiô quando um gatilho emocional te leva a decidir mudar tudo de uma vez, de forma extrema, em vez de ajustares aos poucos. O gatilho pode ser uma roupa que já não serve, um comentário de alguém, ires correr atrás dos filhos e ficares sem fôlego ao fim de poucos metros. Nesse momento decides: “chega, vou mudar já.” E vais direta para o 8 ou 80. Corta tudo. Dieta nova. Regras novas. Amanhã é dia um.

O problema é que essa mudança quase nunca é sustentável. Passado um tempo, deixas de conseguir manter aquela restrição toda, porque ninguém consegue manter esse ritmo durante muito tempo. Desistes. Vem a frustração. E o peso, que já tinha descido, volta a subir. Às vezes acima do ponto de partida.

Depois passam-se uns meses, aparece outro gatilho, e recomeças o mesmo padrão. Perdes, ganhas, perdes, ganhas, e cada vez que ganhas parece que ganhas mais do que da última vez.

O que isto costuma deixar vai além do peso a mais. Fica a sensação de que o problema és tu. Que não tens força de vontade suficiente. Que “com outras pessoas resulta, comigo nunca resulta.” Na maior parte dos casos, o problema é estares a usar o método errado: um plano que não foi feito para durar, sem acompanhamento, com metas que nunca foram realistas para começar.

Quais são os erros que mantêm o ciclo ioiô?

Cinco erros mantêm a maioria das mulheres presas neste ciclo: cortar calorias a mais, eliminar grupos alimentares por completo, não ter um plano para depois da dieta, depender da motivação e escolher dietas que não encaixam na vida real.

1. Cortar demasiado nas calorias

Cortar demasiado nas calorias é o erro mais comum assim que decides mudar. Assim que decides mudar, a tentação é cortar ao máximo: quanto menos comeres, mais depressa perdes peso, certo? Na prática, um corte assim brutal traz uma fome constante, porque o corpo já sente fome normal num défice calórico moderado; num défice extremo, essa fome dispara.

E há outro efeito, menos falado: se dás muito pouca energia ao corpo durante muito tempo, ele habitua-se a andar sempre na reserva, como um carro com a luz vermelha ligada o dia todo. A certa altura, o corpo entra em modo de sobrevivência. Passa a guardar energia em vez de a gastar, porque não sabe quando vai receber a próxima “entrega”. O resultado é precisamente o oposto do que queres: o metabolismo abranda e a facilidade em acumular gordura aumenta.

Basta depois um fim de semana onde comes um pouco mais, ou uma semana fora da rotina, para o corpo acumular bem mais do que acumularia se nunca tivesses cortado tanto. É o que costuma chamar-se o síndrome da última ceia: semana inteira restrita, sábado é “livre”, e nesse dia livre vai tudo.

2. Eliminar por completo um grupo alimentar

Eliminar por completo um grupo alimentar, como o pão ou os hidratos de carbono à noite, costuma ser dos primeiros passos quando decides mudar, e um dos que mais alimenta o ciclo ioiô. A ideia de que um alimento específico é o culpado do aumento de peso é um dos mitos mais persistentes que existem.

O que determina se emagreces é o défice calórico, ou a falta dele. O pão não tem culpa nenhuma nisso. Se tirasses outro alimento qualquer da tua alimentação e ficasses no mesmo défice, o resultado seria igual.

Cortar hidratos à noite, por exemplo, é um erro que se repete muito, e que costuma sair caro: afeta o sono, deixa-te com menos energia no dia seguinte e aumenta os desejos de doces.

Quando eliminas por completo algo de que gostas, cria-se desejo. E o fruto proibido é sempre o mais apreciado. Mais cedo ou mais tarde chega o momento em que já não consegues controlar-te. E como “já estragaste tudo”, a resposta costuma ser comer ainda mais do que comerias se nunca tivesses proibido esse alimento. No dia seguinte vem a culpa, restringes ainda mais, e o ciclo fecha-se sobre ele mesmo.

3. Não ter um plano para depois da dieta

Não ter um plano para depois da dieta é o que faz muitos resultados iniciais desaparecerem meses depois. Seguir um plano alimentar fechado, aquelas refeições todas escritas numa folha, pode funcionar enquanto o segues à risca. O problema é que esse plano foi feito para o teu peso e para a tua rotina de hoje. Assim que perdes os primeiros quilos, o corpo ajusta-se àquelas calorias, e o plano deixa de fazer sentido. Precisa de ser mudado outra vez. E outra vez.

A pergunta que interessa é esta: consegues seguir isto para o resto da tua vida, não só durante dois meses? Se a resposta for não, o plano não vai resolver o problema, só o vai adiar. Mesmo um plano com muitas opções, se te obriga a escolher sempre dentro das mesmas duas ou três alternativas, continua a ser restrição. Só que disfarçada.

O que falta, quase sempre, é aprender a escolher: ler rótulos, planear a semana, saber confecionar, saber o que fazer quando o dia corre diferente do previsto.

4. Depender da motivação

Depender da motivação é provavelmente o erro mais silencioso, e um dos que mais pesa. Achar que só consegues agir quando estás motivada é ficar refém de um sentimento. E a motivação é isso mesmo: um sentimento, como estar triste ou estar contente. Flutua. Não está sempre presente.

Se dependes da motivação para treinar, para cozinhar, para tomar as tuas decisões alimentares, vais ser inconsistente sempre que ela não aparecer, e ela não vai aparecer todos os dias.

O erro está na ordem: a motivação não vem primeiro. Vem depois da disciplina, depois da consistência, depois dos resultados. É a disciplina que gera resultados, os resultados geram motivação, e a motivação alimenta mais disciplina. Começar pelo fim, à espera de sentir vontade antes de agir, é planear para nunca lá chegar.

5. Escolher dietas que não encaixam na tua vida

Escolher dietas que não encaixam na tua vida é o quinto erro, e um dos que mais rápido leva à desistência. Trocar o jantar em família por um batido. Comer frango, arroz e brócolos todos os dias porque foi isso que alguém disse que “resulta”. Nenhuma destas coisas foi pensada para durar. Se não dá para manter para sempre, não vale a pena manter durante dois meses só para voltar ao ponto de partida depois.

A pergunta simples que costuma resolver isto: consegues fazer isto para o resto da vida? Se a resposta for não, o plano tem de mudar. Não a tua vida toda à volta dele.

O que acontece ao teu corpo quando cortas calorias a mais?

Quando cortas calorias a mais, o teu corpo entra em modo de poupança de energia: reduz o gasto energético, guarda gordura com mais facilidade e, se o défice se mantiver, tende a queimar também massa muscular, o que deixa o corpo mais flácido e com menos força. 

É por isto que perder peso “à bruta” costuma sair caro a médio prazo. O objetivo, quando emagreces, é perderes gordura, não músculo. E é o músculo que sustenta o teu metabolismo. Perdê-lo torna ainda mais difícil manter o peso lá para a frente, o que só reforça o ciclo: perdes, o corpo fica com menos capacidade de queimar energia, ganhas com mais facilidade, e voltas a cortar ainda mais na próxima tentativa.

Como sair do ciclo das dietas ioiô?

Sair do ciclo ioiô passa por trocar restrição extrema por um plano que consigas manter durante anos, não durante semanas.

1. Define um défice calórico sustentável

Precisas de comer menos do que gastas, de forma que consigas manter durante meses. Não precisas de comer o mínimo possível: isso é o que te leva direta ao próximo ciclo. Entre 250 e 500 calorias abaixo da tua manutenção costuma ser suficiente para perderes peso sem andares esfomeada o dia todo.

2. Inclui os alimentos de que gostas

Se adoras pão ao pequeno-almoço, continua a comer pão ao pequeno-almoço. A diferença está em quanto e com que frequência, não em riscá-lo da lista. É essa margem que evita que chegues a sábado e comas o pacote todo de uma vez.

3. Constrói hábitos em vez de depender de força de vontade

Um hábito não precisa de motivação para acontecer, tal como lavar os dentes não depende de estares com vontade nesse dia. Achas normal fazê-lo porque já faz parte da tua rotina, não porque hoje “apeteceu”. É esse automatismo que precisas de construir à volta da alimentação e do treino.

4. Tem um plano que se ajusta ao longo do tempo

O teu peso muda, a tua rotina muda, e o que funcionava no primeiro mês pode precisar de afinação três meses depois. Um plano fixo para sempre ignora isso e, mais cedo ou mais tarde, deixa de fazer efeito.

5. Escolhe algo que caiba na tua vida real

Se a tua semana tem trabalho, filhos e pouco tempo, o plano tem de nascer a partir disso. Ninguém vai mudar a vida toda para caber numa dieta.

Quanto é seguro perder de peso por semana?

Um défice calórico sustentável costuma situar-se entre 250 e 500 calorias abaixo das tuas calorias de manutenção, o que se traduz, em geral, numa perda entre meio quilo e um quilo por semana. 

Défice calórico diário Perda semanal esperada O que significa na prática
🟢 250 kcal/dia ~0,25 a 0,5 kg/semana Ritmo mais lento, mais fácil de manter, menos fome
🟡 500 kcal/dia ~0,5 a 1 kg/semana Ritmo moderado, ainda sustentável para a maioria
🔴 1000+ kcal/dia Perda rápida no início Risco elevado de perda muscular

Se ao fim de uma semana perderes 4 ou 5 quilos, isso é sinal de que o défice foi demasiado agressivo, não motivo de festa. Meio quilo a um quilo por semana, feito de forma consistente, já dá quase 30 quilos num ano. E, ao contrário da perda rápida, é peso que fica.

Perguntas Frequentes

Dieta ioiô: porque voltas sempre a engordar?

Entras no ciclo ioiô quando um gatilho emocional te leva a decidir mudar tudo de uma vez, de forma extrema, em vez de ajustares aos poucos.

Cortar os hidratos de carbono à noite ajuda a emagrecer?

Não, o que determina se emagreces é o défice calórico total ao longo do dia, não a hora a que comes hidratos de carbono. Cortá-los à noite tende só a afetar o sono e a aumentar os desejos de doces no dia seguinte.

Porque engordo mais depois de uma dieta muito restritiva?

Porque o corpo, ao passar fome durante muito tempo, entra em modo de poupança de energia e passa a acumular com mais facilidade assim que voltas a comer normalmente.

O que é o défice calórico sustentável?

É consumires um pouco menos de energia do que aquela que gastas, normalmente entre 250 e 500 calorias abaixo da manutenção, de forma que consigas manter esse ritmo durante meses, sem fome extrema nem sensação de privação.

Preciso de cortar completamente algum alimento para sair do ciclo ioiô?

Não precisas. A exclusão total costuma ser o que alimenta o ciclo, não o que o resolve. Incluir os alimentos de que gostas, em quantidades ajustadas, é o que torna a mudança sustentável a longo prazo.

Quanto tempo demora a sair do ciclo ioiô?

Não há um número fixo: depende de há quanto tempo o padrão se repete e de quão extremas costumavam ser as dietas anteriores. O que muda o resultado é trocar restrição extrema por um plano sustentável e um acompanhamento que ajuste o processo ao longo do caminho.