Ep.70 – Ozempic e Mounjaro para emagrecer: o que fazem, os riscos e o que acontece quando paras
Resumo do Episódio
O Ozempic e o Mounjaro emagrecem porque reduzem o apetite e atrasam a digestão, não porque queimam gordura. Funcionam, e os resultados são reais: há evidência científica para isso, embora sejam fármacos recentes e ainda com poucos estudos sobre os efeitos a longo prazo. Mas há riscos que raramente se explicam bem, sobretudo o de perda de massa muscular, e a maioria das pessoas recupera o peso quando o tratamento termina. Este artigo explica o mecanismo, os riscos e o que fazer com essa informação.
Este artigo tem fins informativos e não substitui aconselhamento médico. Qualquer decisão sobre medicação deve ser tomada com um médico.
O que são o Ozempic e o Mounjaro?
O Ozempic, o Mounjaro e os seus equivalentes são fármacos agonistas da GLP-1: imitam uma hormona que o corpo já produz sozinho no intestino quando comemos, e que influencia tanto o sistema digestivo como o sistema cognitivo. Não inventam nada de novo, amplificam algo que já existe.
Foram desenvolvidos originalmente para a diabetes tipo 2, para ajudar a regular os picos de açúcar no sangue. Foi com o uso que se percebeu o efeito secundário: as pessoas emagreciam. Daí nasceu o interesse em estudar estes fármacos também para o tratamento da obesidade.
Ozempic vs. Mounjaro: em que é que são diferentes?
| Características | Ozempic | Mounjaro |
|---|---|---|
| Princípio ativo | Semaglutida | Tirzepatida |
| Recetores que ativa | GLP-1 | GLP-1 + GIP (duplo) |
| Indicação original | Diabetes tipo 2 | Diabetes tipo 2 |
| Perda de massa magra associada | Parte considerável do peso perdido, em média | Tendencialmente semelhante ou um pouco superior |
O que é a GLP-1 e como afeta o apetite?
A GLP-1 tem três funções principais:
- Regula o açúcar no sangue
- Aumenta o tempo de esvaziamento gástrico: a comida demora mais tempo a sair do estômago e a passar para o intestino
- Aumenta a saciedade e reduz a sensação de fome
Estes fármacos imitam essa hormona e potenciam os três efeitos ao mesmo tempo. A pessoa acaba a comer menos calorias do que gasta, quase sem esforço consciente, e isso é o tão desejado défice calórico: a lei da termodinâmica não muda. O fármaco não derrete gordura nem acelera o metabolismo, apenas cria as condições para comer menos.
Uma das razões pelas quais estes fármacos resultam tão bem é a motivação constante. Num processo de emagrecimento, os primeiros três meses costumam ser onde mais gente desiste, precisamente quando a motivação inicial se esgota antes dos resultados aparecerem. Com o apetite reduzido pelo fármaco, a perda de peso é mais constante, e isso sustenta a motivação de uma forma que fazer tudo sozinha, só com mudança de hábitos, normalmente não consegue no mesmo ritmo. Não torna o processo fácil, continua a haver efeitos a gerir, mas ajuda a manter a pessoa no processo.
Quais são os efeitos secundários do Ozempic e do Mounjaro?
Os mais comuns e mais relatados são gastrointestinais, sobretudo no início do tratamento:
- Náuseas
- Vómitos
- Diarreia
- Obstipação
Há mulheres que não sentem praticamente nada disto. Há outras que reportam que, com elas, o tratamento simplesmente não resultou, ou que o abandonaram exatamente por causa destes efeitos, porque são demasiados para gerir no dia a dia.
Há ainda um risco indireto: o de ficar dependente do fármaco sem nunca ter respondido à pergunta “o que é que vai sustentar estes resultados quando eu parar?”. Se a resposta não existir, o problema só está adiado.
Qual o maior risco conhecido do Ozempic e Mounjaro?
A perda de massa muscular.
Quando a perda de peso é rápida, o corpo vai buscar energia a tudo o que tem, não só à gordura. Uma parte considerável do peso perdido tende a ser massa muscular, sobretudo sem acompanhamento nutricional ou treino de força. Essa perda acontece de qualquer forma, mesmo com acompanhamento, só que é maior sem ele.
Vale a pena separar os dois números: o peso na balança e a gordura em si não são a mesma coisa. Uma pessoa com 80 ou 90 kg não tem 80 ou 90 kg de gordura. Tem massa muscular, órgãos, água retida, muito mais do que só tecido adiposo. O que interessa perder é gordura, não peso a direito, e a balança ou o IMC nem sempre mostram essa diferença.

Para a mulher, depois dos 30, isto pesa muito além da estética:
- A massa muscular já se perde a um ritmo mais acelerado do que nos homens a partir desta idade;
- Esse ritmo agrava-se na perimenopausa e na menopausa, com a sarcopenia;
- Menos massa muscular aumenta o risco de doenças cardiovasculares, e também de Alzheimer e Parkinson;
- Ter mais massa muscular ajuda a prevenir estas doenças, além de dar mais força e vitalidade no dia a dia.
O Filipe Simões comenta: “Tenho pensado muito nisto desde que li sobre o Chuck Norris. Morreu aos 86 anos, mas aos 85 ainda fez uma das caminhadas mais exigentes dos Estados Unidos. Um ano antes de morrer, tinha essa capacidade física. Isso não acontece por acaso, acontece quando se passa a vida toda a preservar e a trabalhar o músculo. Depois olho para a minha avó, praticamente da mesma idade. Há seis ou sete anos que se move muito pouco e já depende de outras pessoas para o dia a dia. É a mesma faixa etária, mas a qualidade de vida é completamente diferente.”
Não se trata só de chegar mais longe. Trata-se de como se vai chegar lá.
O que reduz este risco durante o tratamento é o treino de força e proteína suficiente na alimentação. Se a ingestão de proteína for baixa, a perda muscular que já é esperada, torna-se ainda mais difícil de travar.
Porque é que a maioria recupera o peso quando termina o tratamento com Ozempic ou Mounjaro?
Há ainda poucos estudos de longo prazo sobre estes fármacos, exatamente porque são recentes. Mas os que existem apontam na mesma direção: uma grande percentagem das pessoas recupera o peso depois de terminar o tratamento, com valores citados a rondar os 60% num ano.
A lógica é esta: aquilo que ajudou a construir os resultados é aquilo que é preciso manter para os sustentar. Se se retira o que trouxe o resultado, o resultado tende a reverter.
O tratamento elimina o sintoma – o excesso de peso -, mas não vai à causa que levou a pessoa a chegar à obesidade. Essa causa pode ser:
- Uma relação emocional perturbada com a comida;
- Compulsão alimentar;
- Não conseguir distinguir fome física de fome emocional;
- O ambiente à volta – físico, social, emocional e mental -, que continua exatamente igual quando o fármaco acaba.
Se nenhum destes aspetos for trabalhado em paralelo com o tratamento, é quase garantido que o peso volta assim que o medicamento termina, porque as causas continuam lá. Os alimentos que são gatilhos continuam no mesmo sítio em casa. Enquanto o fármaco está ativo, a pessoa não sente vontade de lhes tocar, mas eles não desaparecem só porque o apetite está suprimido.
A Ana Alves, psicóloga da equipa BMFIT, costuma explicar isto através da questão da identidade. A pessoa sabe, lá dentro, que é o fármaco que está a sustentar a perda de peso, e continua a ver-se como “a pessoa que não sabe controlar-se com a alimentação“, porque essa identidade nunca foi trabalhada. Ela prefere não chamar a isto estabilidade: estabilidade é ter estrutura e segurança próprias. Estar sob o efeito do fármaco sem mudar mais nada é mais parecido com estar dentro de uma redoma: protegida, com os problemas lá fora, sem lhe chegarem. Quando se sai da redoma, está tudo exatamente igual.
Quando é que faz sentido usar o Ozempic ou o Mounjaro?
A obesidade é uma doença. Em casos de obesidade mórbida, com morbilidades associadas e risco de vida, pode fazer todo o sentido recorrer a estes fármacos desde o início, para reduzir esse risco enquanto se constrói o resto.
Mas nunca se deveria usar como substituto de uma mudança de hábitos, no máximo, como complemento. É um pouco a mesma lógica do acompanhamento psicológico com medicação: às vezes é preciso medicação para estabilizar a pessoa o suficiente para conseguir fazer a mudança de fundo. A medicação não é a mudança, é o que torna a mudança possível.
Enquanto o apetite está reduzido, é a janela de oportunidade ideal para aprender a comer bem, sobretudo para quem tem impulsos alimentares difíceis de gerir. É o momento certo para introduzir proteína na quantidade certa, estruturar as refeições e começar a mexer mais o corpo, sem o esforço parecer tão grande.
Fora destes casos, para quem só quer perder alguns quilos, sem obesidade nem risco de saúde associado, os riscos tendem a pesar mais do que o benefício de curto prazo:
- Perda de massa muscular;
- Reganho de peso quando o tratamento termina;
- Ficar dependente do fármaco sem nunca ter mudado o que trouxe a pessoa até ali.

O que fazer se estás a considerar o Ozempic ou o Mounjaro
Se estás a pensar nestes fármacos, a pergunta mais honesta que podes fazer é: o que está por resolver na tua relação com a alimentação?
É essa relação, os gatilhos, os padrões de comportamento, que vai determinar o resultado a longo prazo, com o fármaco ou sem ele. O fármaco pode reduzir o apetite. Mas não resolve:
- O hábito de comer por stress quando chegas a casa destruída depois de um dia de trabalho e filhos
- O piloto automático à noite
- A culpa que vem a seguir
É com mais de 300 mulheres que já acompanhámos que vemos este padrão repetir-se: quem trabalha a relação com a comida mantém os resultados. Quem só suprime o apetite, volta ao ponto de partida quando o efeito passa. Não é fácil, mas é o único caminho com resultados que ficam.
Este artigo tem fins informativos e não substitui aconselhamento médico. Qualquer decisão sobre medicação deve ser tomada com um médico.
Ozempic e Mounjaro
O Ozempic funciona mesmo para emagrecer?
Funciona. O mecanismo está comprovado: imita uma hormona que regula o açúcar no sangue, abranda a digestão e aumenta a saciedade, e a pessoa cria um défice calórico ao comer menos. O que não faz é queimar gordura diretamente ou alterar o metabolismo.
Quais são os efeitos secundários do Ozempic?
Os mais comuns são náuseas, vómitos, diarreia e obstipação, sobretudo no início do tratamento. O risco mais conhecido é a perda de massa muscular, que tende a agravar-se sem treino de força nem proteína suficiente na alimentação.
O que acontece quando se para de tomar Ozempic?
O apetite regressa. Se durante o tratamento não houve mudança de hábitos ou da relação com a comida, o peso tende a voltar. Os dados disponíveis, ainda escassos por ser um fármaco recente, apontam para uma grande percentagem de pessoas a recuperar o peso perdido dentro de um ano.
Posso tomar Ozempic sem ser diabética?
A indicação original é para diabetes tipo 2. A aprovação para obesidade veio depois. A decisão de prescrever ou não o medicamento deve ser sempre tomada por um médico, nunca uma escolha para tomar sozinha.
O Ozempic causa perda de músculo?
Sim, há esse risco, especialmente em perdas de peso rápidas e sem acompanhamento. O que reduz esse risco é treino de força durante o tratamento e ingestão adequada de proteína.